Publicado em Histórias Do Milagre

Milagre – Parte 16 “Epílogo”

 cao-3

Quando concordei com a eutanásia do Milagre, eu já estava esgotada. Esgotada de tanto sofrer, esgotada de tentar e sempre surgir novas complicações, esgotada emocionalmente. O que me doía mais, era ver que todo meu cuidado tinha sido em vão. Não me importava com o fato de que passaria um ano pagando seu tratamento, mesmo que ele não estivesse vivo para eu dizer “valeu a pena”, pois mesmo morto não me arrependo do que fiz, o que me doeu mais, foi ter que desistir, por ser incapaz de continuar cuidando dele. Ele precisaria de cuidados 24 horas e eu não podia contar com mais ninguém. Ninguém que dispusesse desse tempo, ou de boa vontade, não tinha como eu chegar em qualquer pessoa que fosse e dizer: “Olha, salvei um cachorro na rua que foi atropelado, pode cuidar pra mim, enquanto eu trabalho?!” Éramos só nós dois. E além de todos esses motivos, sua recuperação era incerta. Ele não estava tendo qualidade de vida, o pobrezinho vivia deitado todo o tempo, sem mal poder se mexer com uma pata a menos e duas desabilitadas.

Fui vencida pela dor. Pois vê-lo naquela situação me cortava o coração. Se eu soubesse daquela clínica desde o princípio, talvez pudesse ter sido diferente, afinal eles teriam feito todos exames e cirurgias a tempo, onde poderia ter passado menos sufoco nessa trajetória.

Fiquei com ele até fazerem todos os procedimentos, chorei e sofri demais, mas me convenci que era o melhor a fazer. Quando estava indo embora, as senhoras que me consolaram antes, me perguntaram dele e o que tinha acontecido, contei a elas entre lágrimas, e as questionei: “De que valeu isso tudo se ele não conseguiu ficar bom?” e uma delas me respondeu: “De que valeu? Você viu os olhinhos dele olhando pra você? Ele sabia que você fez o que podia por ele”.

Será mesmo? Será que ele sabia que mesmo o conhecendo há tão pouco tempo, eu o amava e queria demais que ele ficasse bom?? Será que ele sabia que eu sofria tanto quanto ele, vendo-o naquela situação?? Será que ele sabia que estava sendo bastante difícil para mim, ter que abrir mão de mantê-lo vivo, porquê eu não tinha os recursos necessários para salvá-lo?? Sei que ele era só um cachorro, mas mesmo assim quero acreditar que ele tinha esse entendimento, pois mesmo sabendo que sua história não teve um final feliz, procuro acreditar que sua passagem na minha vida não foi em vão.

o-avanco-da-tecnologia-e-seu-impacto-no-poder-da-musica

TRILHA SONORA

 Sum 41 – With You

Measure – Begin Again

Maroon 5 – My Heart Is Open

Publicado em Histórias Do Milagre

Milagre – Parte 15 “O Diagnóstico”

Cachorro-doente-no-hospital

Era o mesmo veterinário da outra vez. Quando mostrei a ele desesperada, o que ele tinha nas costas, ele precisou chamar outro veterinário pois não tinha certeza! O outro veio e disse que era algum tipo de infecção profunda que não me recordo agora o termo técnico, disse que quase tinha atingido a coluna e que se tivesse chegado a tanto seria pior ainda!

Disse que seria preciso anestesiá-lo, que raspariam mas que demoraria em torno de dois ou três meses para cicatrizar, que entrariam com mais antibióticos, e que ele precisaria de cuidados diários, que alguém ficasse o tempo todo com ele. Já fui ficando mais aflita, pois eu não poderia dar toda essa atenção, eu tinha meu trabalho e minha mãe também, expliquei a ele que só o via de manhã e a noite, e perguntei do fundo da alma, quais as chances dele de ficar recuperado nas atuais circunstâncias.

No mesmo momento o veterinário que havia me atendido da outra vez, foi para sua mesa e puxou o histórico do Milagre no computador, começou a ler em voz alta para esse veterinário, que estava alheio ao restante do seu quadro. Ao final de tudo, ele disse: “É… No caso dele não é só a infecção, possui uma série de outros problemas, perdeu a sensibilidade das patas traseiras, já não tem uma da frente, o fato dele comer e beber sozinho, é bom, mas não lhe garante melhora no restante, é um tipo de paciente que não pode ficar sozinho, pois precisa de cuidados em tempo integral.

Perguntei entre lágrimas se ele achava que no caso dele seria melhor eutanásia, pois se esse era os cuidados que ele deveria ter, eu não poderia dar. Ele disse que isso não partiria deles, mas que no caso dele realmente era complicado eu continuar com seu tratamento se não poderia ficar com ele diariamente. O Milagre a essa altura já estava se lambendo e lambendo a mesa ao qual estava em cima, tamanha a sede que deveria estar.

Como era uma decisão muito difícil e muito séria, disse que precisaria fazer uma ligação. Eles me deixaram a vontade e liguei para minha mãe. Minha mãe começou a chorar comigo ao telefone. Disse que já esperava isso, pois ele estava ficando cada vez pior, e que por mais triste que fosse pelo menos agora ele descansaria e não ficaria nessa agonia de só ficar deitado, impossibilitado de fazer o que quer que fosse. Para tentar me acalmar disse também que eu tinha um coração muito bom, mas que já tinha feito tudo que podia, como ele ia ficar em casa o tempo todo sozinho com todos esses problemas? 😦

ultimos-momentos-cachorro-doente

ultimos-momentos-cachorro-doente2

ultimos-momentos-cachorro-doente3