Publicado em diário de uma atriz

Hora do Horror

“O ator que faz a Hora Do Horror está pronto pra fazer qualquer coisa”. O preparador de elenco nos disse, no dia da audição. Na hora pensei que fosse porque assustar devia ser uma coisa muito difícil, mas, na verdade, ser atriz Di Hopi Hari vai muito além de fazer “bu”.

Tocar o terror até que é fácil! A make ajuda, o figurino também, sem contar a cenografia e os efeitos visuais e sonoros. Você rapidamente pega gosto pela coisa e sente uma enorme satisfação, além de se divertir, dando muito susto nos outros. 😁

Mas onde está o desafio então? No cansaço físico. Na garganta rouca toda semana. No acordar cedo e dormir tarde. Na longa viagem de trem. E lhe confesso também que nem todo visitante está lá para brincar e se divertir. Na verdade, a diversão de alguns é zombar do monstro, 🙄 diferente de uma plateia, em que há uma distância segura. Tudo isso é um trabalho de resistência.

Então sim, o ator que faz a Hora do Horror está mesmo preparado para fazer qualquer coisa. Pois aqui é uma atuação de improviso. Você tem o seu personagem, suas falas, mas as reações são as mais diversas e independente de qual seja, não se pode, nunca, sair do personagem. ☝🏻  

Alguns se assustam, dão risada, outros xingam, assediam (pois é) e os mais legais também elogiam, reconhecem a qualidade da make, da sua performance e, junto com você, acham aquela experiência incrível.   

Adoro os domingos em que o parque está mais lotado. Adoro a parede de gente que se forma pra assistir a gente passando. Adoro os aplausos que já começam na fila da montanha russa. Adoro os gritos e os celulares nos registrando, como grandes artistas que somos.   

… Eu só lamento não poder postar nenhuma foto da minha personagem, para que vocês pudessem sentir só um pouquinho dessa magia. 👹  

Mas nem sempre foi assim. Trabalhar no Hopi Hari é um processo de adaptação. Os dias de integração são os mais sofridos. No meu caso, que moro extremamente longe do parque, na Grande São Paulo, precisava sair às 4h da manhã de casa, para uma viagem de quatro horas, em que a minha chegada deveria ser às 8h. Exercícios de atuação, esquetes, nada que tivesse a real emoção do que seria estar em campo mesmo.

Logo na primeira semana de evento foram seis dias seguidos. Um dia de ensaio geral e outros cinco de evento oficial (por conta do feriado). Admito, eu pensei em desistir duas vezes. Uma depois do último dia de integração, em que passei por uma situação de suspeita de assalto no trem (tive a forte sensação de que seria assaltada quando quatro homens mal encarados entraram no vagão, tarde da noite) e a segunda quando senti uma imensa exaustão após o primeiro dia de evento. “Não conseguirei aguentar se for nesse ritmo sempre”, pensei alarmada. É exaustivo não só pela atividade em si, mas também pelo ir e voltar. Principalmente o voltar, quando você já está exausto e parece demorar mais do que o normal para chegar no destino final.

A primeira vez que me vi maquiada, me senti horrorosa. “É isso mesmo! Quanto mais feia, mais assustadora”, pensei. Eu fui apresentada ao látex e ele apresentado a mim. Não nos gostamos. Cheiro forte, consistência estranha na minha cara, muita novidade na minha vida de atriz. Felizmente convivemos somente por quatro dias, até que ele demonstrasse não ter se adaptado a mim.

No segundo dia de evento (sábado), o parque estava ainda mais cheio. Nessa noite experimentei acrescentar falas aos meus, até então, “rugidos sinistros” e notei que assustava mais e me cansava menos. Fui me conhecendo como atriz e me descobrindo como personagem. Se tal mudança foi boa para a minha performance, não posso dizer o mesmo da minha make. Conforme eu movimentava mais a boca, o látex cedia.

Quando aconteceu me frustrei, pois sempre ocorria justo no início do evento (por dois dias seguidos), então logo que o negócio começava a ficar bom, uma parte da minha make já se perdia. No entanto, quando reportei a minha maquiadora e ela decidiu mudar, ficou ainda melhor! Mais assustadora e mais fácil de remover. 😏

O processo de remover a make também foi aprimorado. No começo eu usava o sabonete líquido disposto no banheiro. Eu lavava o rosto uma, duas vezes, achava que tinha tirado tudo (ou pelo menos quase tudo) e quando chegava no espelho ainda tinha um bocado. Um dia tive a brilhante ideia de experimentar lavar com shampoo Johnson (aquele amarelinho mesmo, de bebê) e descobri o que era a realeza na remoção de maquiagem. Então, já sabe, se um dia você trabalhar com maquiagem artística, já guarda essa dica!

Minha atuação em campo também foi um crescente de habilidades. Depois do susto com o balde de exaustão na primeira noite da Hora do Horror, nas próximas que se seguiram aprendi a dosar a minha energia para que durasse a noite toda (quero dizer, as duas horas de evento), distribuindo, com sabedoria, sem me desgastar tanto fisicamente outra vez.

No primeiro domingo de evento aconteceu algo, até então, totalmente inédito para mim. Fomos ovacionados e aplaudidos pelos visitantes, durante todo o trajeto, enquanto nos encaminhávamos para os nossos portais!! Sério… foi emocionante! 🤩 Toda aquela galera que estava no parque era só para ver a gente!! (Tá, foram para brincar nos brinquedos também, mas a Hora do Horror continuava sendo o evento principal, visto que acontece por temporada 😏). Formou-se aquela parede de gente nos filmando, elogiando, parecia desfile no tapete vermelho. 🤩

Após seis dias seguidos como monstrinha, a folga chegou como uma água no deserto. Ainda que fosse apenas dois dias (quarta e quinta, sexta recomeçava o evento), foi o suficiente para renovar as energias.

Próximo de dar um mês de Hopi Hari aconteceu algo inédito. Após duas semanas folgando direitinho (de segunda a quinta), senti uma coisa que até então ainda não tinha sentido: Saudade. Saudade de assustar as pessoas! 😲

Vejo que agora estou plenamente adaptada, totalmente familiarizada e confortável com a rotina. Além de estar dominando cada vez mais a arte do susto. 😈 “Isso aqui passa muito rápido”, lembro do diretor artístico nos dizendo no dia da audição. E realmente passa mesmo. Um mês já se foi e num piscar de olhos dois meses já terão passado também.