Publicado em Cotidiano, teatro

Temos a Arte para não morrer da Verdade

Todo mundo deveria fazer teatro. Na verdade, é uma grande catástrofe que a arte não seja estimulada em nosso país. Você sabia que nas escolas americanas há disciplinas extracurriculares como: música, culinária, teatro e fotografia, sem que o aluno precise pagar um curso a parte, como ocorre aqui no Brasil?

Mas enfim, não estou aqui para enaltecer o ensino americano (apesar de realmente ser surpreendente melhor que o nosso) e sim para defender a questão da importância do teatro na vida das pessoas. Já ouvi muito dizer que Fulano ou Ciclano entraram no curso de teatro para acabar com a timidez, brotando em mim a ideia de que o teatro tivesse duas funções: formar um ator e acabar com a timidez de pessoas tímidas, quando, na verdade, vai muito além disso.

Sou formada em Jornalismo e meu primeiro contato com o teatro foi no primeiro semestre da faculdade. Na época decidi entrar para o Núcleo de Dramaturgia com interesse apenas nas horas complementares que eu ganharia. Fui para as aulas sem ter a menor ideia de como seria. O professor que nos guiava, passava atividades que no começo me pareciam bobas e me envergonhava fazer, como quando ele pediu que fingíssemos estar nadando dentro de um oceano, em busca de algo novo como nadador. O espaço inteiro do auditório era esse oceano. Nos enfiávamos entre as poltronas, deitávamos no chão, rolávamos, pulávamos, sentávamos e apesar de por fora parecer que eu estava imersa naquele exercício, por dentro eu me sentia uma boba por estar fazendo aquilo. A ideia do ator na minha cabeça era a de aquele que decora o texto e diz suas falas na frente de outras pessoas, não o que fica brincando de faz de conta em um auditório de faculdade.

No final das contas, o Núcleo não me rendeu as horas complementares que eu tanto precisava. Perdi minhas 40 horas livres devido a uma falha na organização das aulas que não computou a minha participação, mas, em contrapartida, ganhei um presente ainda maior: O bichinho da arte havia me picado e a agora eu queria mais.

Eu tinha acabado de ingressar na faculdade e não havia a menor possibilidade de abandonar o curso, uma vez que já tinha demorado anos para decidir o que cursaria. Segui adiante com o meu sonho de ser jornalista, mas, na reta final da graduação, ou seja, no último ano, decidi cursar algo relacionado a atuação em paralelo com as aulas da faculdade, para ter mais certeza que aquela picada do bichinho da arte era compatível com a minha pessoa.

Me inscrevi num Curso Livre de Interpretação Para TV, que era curto (com uma duração de 4 meses cada módulo) e que serviria para me mostrar se eu realmente possuía o dom para me tornar uma atriz ou se era só fogo de palha da minha cabeça mesmo.

No primeiro dia de aula, antes mesmo que começássemos com os exercícios, enquanto a professora apenas explicava coisas técnicas sobre a rotina de gravação de uma novela e cinema, senti algo positivo dentro de mim, algo que me dava a certeza de estar no lugar certo. O meu único medo era não ter o dom para a atuação. Pois, por mais que a professora frisasse que o talento não era determinante, que o estudo e a dedicação tinham mais peso, eu não insistiria em algo que estivesse nítido que eu não levasse o jeito para a coisa.

Durante aquele ano (que foi no ano passado), acabei cursando dois módulos do curso de TV (Iniciante e Avançado) e, em paralelo, também fiz dois workshops.

Foi a partir do primeiro workshop que a minha vida e a minha visão do mundo e das pessoas, começou a mudar. Por isso falo da importância da arte na vida do ser humano. É o tipo de experiência que indico para QUALQUER pessoa, não só para quem quer ser ator. O primeiro workshop que fiz foi de “Interpretação Para Cinema” com o Sérgio Penna, no Rio de Janeiro. Para quem não sabe, Sérgio Penna é um preparador de atores muito famoso e conceituado. Seu método de ensino é extenso e muito completo. Fui até o Rio para fazer, porque ele já tinha passado por São Paulo e demoraria até que viesse de novo. Durou três dias.

Imensurável o aprendizado adquirido. Voltei para a casa mais humana e amando mais o ser humano. Você começa a perceber que realmente existe esse lance de energia e a troca de energia no workshop do Penna foi incrível. Não havia rivalidade, superioridade (e olha que tinha famosos participando do workshop também), parecia que todo mundo era da mesma família, como se fôssemos irmãos, sabe? No começo eu estava um pouco travada, pois eu nunca tinha feito um workshop antes e não sabia que funcionava daquela maneira tão coletiva e libertadora. Você não é mais só você, você é todos e todos são você. Fantástico e maravilhoso.

São experiências edificantes para o nosso ser, mas que, se não forem cultivadas, com o passar do tempo, a correria da vida cotidiana engole as sensações vividas e aos poucos você esquece a importância da conscientização de tudo que foi aprendido. Então, no mês seguinte fiz outro workshop, dessa vez da Fátima Toledo, chamado: “Coragem Emocional”. Esse durou uma semana. Igualmente engrandecedor.

Ao estudarmos atuação, não aprendemos apenas a decorar um texto, posicionamento de câmera e enquadramentos. Aprendemos a ser pessoas melhores. Ser ator envolve a busca pelo autoconhecimento. Por isso que em sua maioria, os atores são pessoas alegres e felizes, ainda que nem sempre sejam bem-sucedidos financeiramente. Isso por que são livres, e liberdade, ao qual me refiro aqui, não é sobre o direito de ir e vir, falo da liberdade espiritual. Se livrar dos seus medos, dos seus bloqueios, das suas inseguranças, afinal, os atores precisam se livrar de tudo isso para poderem viver um personagem com real entrega e perfeição.

Então deixo aqui mais uma vez esse conselho a você que estiver lendo isso. Faça teatro. Busque o autoconhecimento. Todos temos uma missão na Terra, cabe a nós descobrirmos qual e usufruirmos deste conhecimento com total sabedoria.

Nossa experiência levou-nos a crer firmemente que só o nosso tipo de arte, embebido que é nas experiências vivas dos seres humanos, pode reproduzir artisticamente as impalpáveis nuanças e profundezas da vida. Só uma arte assim pode absorver inteiramente o espectador, fazendo-o, a um só tempo, entender e experimentar intimamente os acontecimentos do palco, enriquecendo a sua vida interior e deixando impressões que não se desvanecerão com o tempo.

(Constantin Stanislavski – A preparação do ator)

Publicado em Biblioteca

Perdendo-Me

livro perdendo-me

Título Original: Losing It

Autor: Cora Carmack

Editora: Novo Conceito

Ano: 2014

Bliss Edwards tem 22 anos e está no último semestre da faculdade. A novidade é que ela é virgem. Não que goste de ser, mas nunca se relacionou seriamente com alguém para que sentisse a necessidade de fazer sexo antes. Agora que está prestes a se formar, ela quer perder logo a sua virgindade. Mas com quem? Com um estranho? Ela e sua amiga Kelsey saem para um barzinho. Ela tinha decidido que deveria perder a virgindade aquela noite com quem quer que seja, contanto que também estivesse interessada.

“- Eu não estou falando do cara certo para se casar, docinho. Estou falando do cara certo para agitar esse sangue aí nas suas veias. Para fazer com que você desligue esse seu cérebro analítico e hiperativo e em vez disso pense com o corpo.” (Pág. 7)

Então ela conhece o encantador Garrick. Não poderia ter conhecido alguém melhor. Imediatamente rolou uma forte química entre os dois, e ele também se interessou por ela. Ao final da noite acabaram no apartamento de Bliss. Mas apesar de estar muito excitada, por estar com um homem lindo como ele em sua cama, Bliss ainda estava receosa.

“Era isso. Eu estava prestes a fazer sexo. Eu deveria contar a ele que eu era virgem? Eu deveria contar isso a ele sim. Deveria contar agora? Ou logo antes…?” (Pág. 48)

O fato é que Bliss amarelou e inventou uma desculpa totalmente sem noção! Sem revelar a Garrick que na verdade, era virgem. Mesmo com a coincidência de morarem no mesmo condomínio, Bliss, resolveu esquecer aquela noite. Garrick era incrível, ela tinha gostado demais de ter ficado com ele, se lamentava por não ter tido coragem de ir até o fim, mas não achava que fossem ficar ou se virem outra vez, depois da desculpa esfarrapada que lhe deu. Até que no dia seguinte, no primeiro dia de aula de seu último semestre da faculdade, teve uma grande surpresa!

“Kelsey escolheu aquele minuto para agarrar meu cotovelo e me virar na direção dela. Ergui o olhar para onde ela estava olhando. Foi então que o lápis que me esforcei tanto para achar caiu da minha mão e saiu rolando pelo chão, perdido no abismo debaixo das arquibancadas.” (Pág. 64)

Garrick Taylor era seu novo professor. A partir daí começa a grande tortura de Bliss, que tinha que lidar com seu novo professor como se não o conhecesse, e como se nada houvesse acontecido entre os dois. Ignorando as sensações que ele lhe provocava.

“De maneira alguma eu podia esquecer o que havia acontecido. Mas eu podia tentar. Eu podia fingir.” (Pág. 73)

O bacana é que Garrick também estava bastante interessado em Bliss, apesar das circunstâncias. O que só me faz acreditar que se ela tivesse realmente ido até os “finalmentes” com ele logo no primeiro encontro, talvez ele já tivesse perdido o interesse nela.

“Eu sabia o que era desejar algo que não se pode ter. E mais do que tudo… eu sabia o que era querer e não querer alguma coisa ao mesmo tempo.” (Pág. 100)

Bliss tentava ignorar o que sentia por Garrick, tendo em vista que o relacionamento dos dois era proibido, pois se levassem adiante e fossem descobertos, sofreriam grandes consequências pela Universidade. A história tem bastante erotismo, devido a grande tensão sexual que paira entre os dois. Chega um momento que eles não conseguem mais fingir que nada aconteceu e resolvem manter o relacionamento às escondidas. Será que agora sim Bliss conseguirá perder a virgindade com Garrick? Será que alguém descobrirá esse envolvimento anti-ético entre aluna e professor?

“Havia tantas maneiras para isso terminar mal. Por outro lado, pela primeira vez, eu achava a minha vida mais interessante do que a história de um personagem em uma página. E, ah, meu Deus, como eu queria saber o final! (Pág. 146)

Um ponto interessante da história é o fato de Bliss estudar teatro. Ela participa de audições e apresentações, onde passa ao leitor, que quer seguir essa mesma carreira, uma boa noção das dificuldades e prazeres da profissão.

Achei um pouco entediante e que a autora se estendeu demais, na parte da doença; e também se descuidou de alguns detalhes:

  • Já que Bliss ficou vários dias enferma, e sua amiga Kelsey não adoeceu junto com o restante elenco da peça, como que só se preocupou em visitar a amiga muitos dias depois?
  • Achei sem noção também, quando Garrick apareceu do nada, ao seu lado em seu quarto, sendo que entende-se que ela havia trancado a porta de seu apartamento, quando foi dormir, antes de adoecer. Ele arrombou a porta? Quem abriu pra ele se não havia mais ninguém lá?
  • E como Garrick que estava sem falar com Bliss, se preocupou em ir até seu apartamento do que sua própria amiga Kelsey?

Seria legal se a autora pudesse me esclarecer essas partes rs. De modo geral é uma história legal, a autora narra detalhadamente os momentos em que Bliss e Garrick quase fazem sexo, onde podemos imaginar a cena exatamente como “aconteceu”.

TRILHA SONORA

música

Cher Lloyd – Human

Cher Lloyd – M.F.P.O.T.Y.